PESQUISA

 

Futuro promissor, mas de cautela

Sondagem do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT) mostra perspectivas para o mercado de trabalho e, também, poucos qualificados

 

RAFAEL MOTTA
DA REDAÇÃO

O "recado" está dado: neste 1º de maio, Dia do Trabalho, a Baixada Santista não tem mão de obra qualificada em número suficiente para os empregos a serem oferecidos num futuro cada vez mais próximo. É o que se depreende das entrevistas feitas pelo Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT), em 14 e 15 de abril, com 1.200 moradores das nove cidades locais.

Disparadamente, a maioria dos entrevistados (58,3%) acreditam que petróleo e gás é uma das áreas onde mais surgirão empregos, na região, nos próximos anos. E, na opinião de um quinto (20,4%), técnico em petróleo e gás se tornará a profissão mais procurada para contratações ­ em Santos, o índice chega a 38,3%.

Cinco em cada dez consultados (51,3%), porém, não se consideram preparados para disputar postos de trabalho na Petrobras e em outras empresas do setor de combustíveis. Dos que se consideram inaptos a concorrer a essas vagas, 69,1% afirmam não ter "boa qualificação profissional" e 11% temem a vinda de "candidatos mais preparados de outras regiões".

Esse retrato do momento atual faz parte do Projeto Baixada Santista 2021 ­ Os Desafios para a Próxima Década, desenvolvido conjuntamente pelo IPAT e pelo Instituto Impacto. Os dados embasarão simpósios e análises para o planejamento da região até a próxima década (veja destaque).

"É umrecado claro. A população não se sente preparada e se ressente da falta de cursos de qualificação. Esse é um grande obstáculo ao preenchimento de empregos, por exemplo, na Petrobras", constata o coordenador do IPAT, Alcindo Gonçalves.

A escassez de trabalhadores adaptados a uma realidade que bate à porta ficou demonstrada entre os próprios entrevistados. Do total, 67,9% não fizeram cursos técnicos ou universitários. Consideradas as cidades individualmente, Santos, a mais rica cidade local, tem 59,9% dos munícipes consultados nessa situação. No outro extremo, em São Vicente, 78,8%.

 

MACAÉ, A SOMBRA

"Cabe a Santos se preparar para o futuro, pois é possível que o impacto do pré-sal e do porto venha a ser maior do que o causado pelo petróleo em Macaé. Caso não se tomem medidas adequadas, o resultado socioeconômico será ruim", adverte Claudio Salvador Dedecca, professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Macaé, no Rio de Janeiro, é o mais nítido exemplo de crescimento sem planejamento decorrente da indústria petrolífera. A partir da década de 1970, os bons empregos atraíram gente do Exterior: cerca de 10% da população é de estrangeiros. Porém, trabalhadores com pouca ou nenhuma qualificação que acorreram à cidade e ficaram sem emprego se instalaram em favelas, cujo crescimento prossegue.

Dedecca salienta que "o pré sal vai bater em Santos" por questões geográficas: no Litoral Norte, há "restrição enorme" à ampliação do Porto de São Sebastião (gerenciado pelo Governo Estadual) devido à necessidade de "investimento razoável em rodovia e ferrovia". E, ao Sul, no Vale do Ribeira, há "a Jureia, com restrições ambientais".

"Do ponto de vista do Estado de São Paulo, a região de Santos é estratégica. Não há saída: ela vai ter de acomodar a ampliação do Porto e o pré-sal. A perspectiva de geração de empregos é robusta, mas temos de preparar trabalhadores qualificados para essa demanda", reforça o docente.

 

AJUSTAR PONTEIROS

"O grande problema é ajustar o descompasso entre a demanda por mão de obra e a oferta de trabalho", entende Paulo Alexandre Barbosa, presidente do Instituto Impacto e nomeado recentemente secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia.

Tal preocupação se torna maior à medida que, na visão de Barbosa, "não há região do Estado que terá desenvolvimento econômico como a Baixada Santista. Mas as funções no setor de petróleo e gás são algo novo, que requer um esforço de planejamento".

 

NACIONALMENTE

A escassez de trabalhadores qualificados não é exclusividade da Baixada. Comunicado divulgado na quinta-feira pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que, dos 7,3 milhões de trabalhadores desempregados no País, apenas 2 milhões (27%) dispõem de qualificação e experiência profissionais.

Ainda com base no Ipea, os que deverão ingressar neste ano no mercado de trabalho estão mais qualificados. São uma leve maioria: 762 mil (ou 51%) dos 1,5 milhão que deverão tentar emprego no Brasil.

 

 

Construção civil sofre com "estrangulamento"

 

A Rede de Qualificação Profissional de Santos mal surgiu (veja na página A-7), mas o secretário estadual de Emprego e Relações do Trabalho, Davi Zaia, observa que "um setor bastante estrangulado (na Baixada Santista) é o da construção civil". É para esse segmento que se destinará "boa parte" das vagas de qualificação a serem oferecidas, talvez a partir de junho, pela secretaria.

Por meio do Programa Estadual de Qualificação Profissional, Zaia alega ter como meta a formação de 5 mil profissionais, na região, ainda neste ano. Eles se somarão aos 1.800 que, de acordo com ele, já passaram por cursos ministrados nessa iniciativa.

Para as futuras aulas, o secretário espera conseguir mais dados das comissões municipais de emprego das nove cidades locais. A pretensão é conhecer adequadamente a demanda do empresariado, a fim de direcionar as vagas nos novos cursos.

"O índice de empregabilidade é alto. No início de fevereiro, concluímos um curso para 94 motoristas na área portuária. Assim que terminou, 91 deles já tinham emprego com carteira assinada em empresas do Porto (de Santos)", salienta Davi Zaia.

 

NOVAS FORMAS

O secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, Paulo Alexandre Barbosa, declara ter como pretensões, à frente da pasta, a ampliação das Faculdades de Tecnologia (Fatecs) e Escolas Técnicas Estaduais (Etecs), e estender o programa Via Rápida para o Emprego.

Esta última iniciativa consiste na oferta de cursos de curta duração, conforme as demandas regionais ­ como será com os postos de trabalho diretos e indiretos decorrentes, por exemplo, da ampliação do Porto e da exploração de combustíveis. "Nenhuma região tem mais necessidade de qualificação do que a nossa".

 

 

Fonte: Jornal A Tribuna - 01/05/2011

 

 

 

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